“Sempre vamos querer saber a verdade”, Samora Machel Júnior

Samora Machel Jr. é o único filho de Samora e Josina Machel e o sexto de oito filhos que o Presidente teve. Conversámos com Samito, como é chamado na família, em Chilembene, sobre os planos e sonhos para o país partilhados por seu pai, em vida, e o curso das investigações que visam encontrar respostas sobre a morte de Machel no trágico acidente de Mbuzine, há 30 anos.

Estamos a celebrar a vida de um líder. Mas, para si, é mais do que isso. É um pai, é uma referência. Tem algumas memórias pessoais dele?

Há vários momentos que tivemos. É verdade que eu era muito pequeno, na altura, mas são momentos que vão ficar para toda a vida na minha memória. Durante a luta armada, quando viesse do interior, contava-nos histórias e explicava um pouco sobre a situação da guerra. Eu não percebia, obviamente, mas ele contava e levava-me às conversas com os colegas. Ele sempre foi um pai muito carinhoso, atencioso, mas também disciplinador. Muito disciplinador, exigente, talvez por causa da formação técnica que teve, de enfermeiro. Os enfermeiros são muito organizados, são muito disciplinados. Portanto, exigia muito de nós. À medida que eu ia crescendo, ele ia ensinando sobre a origem da família, o respeito pela hierarquia familiar e não só. também falava da necessidade de respeitarmos os dirigentes políticos. Ele ensinou-nos a partilhar momentos com mais pessoas, mesmo que sejam momentos de tristeza e de alegria, é sempre com essas pessoas com quem vivemos no dia-a-dia.

 

Como Samora cultivava a proximidade com as pessoas de Chilembene?

Desde o momento em que pôs os pés de volta a casa que esta interacção aconteceu com a comunidade aqui de Chilembene e de outras localidades circunvizinhas. Quando fôssemos lá com o papá, de férias, eram ambientes de festa todos os dias. Estavam cá inúmeras pessoas para conversar e contar o que estava a acontecer e também ouvir o que ele tinha para dizer. E passávamos o dia a cantar, a dançar e conversar.

 

Tivemos a oportunidade de visitar a casa onde viveram Samora e Graça Machel, em Chilembene, e vimos extrema simplicidade. Samora não pensava em si ou na sua família, no que diz respeito ao conforto?

Samora preocupava-se com a família. Ele não se preocupava consigo próprio, não se preocupava com bens materiais. A preocupação número um de Samora era resolver os problemas do país, pôr o país a desenvolver, ver o seu povo calçado, com vestuário, podendo comer, trabalhar, aprender e ter acesso à saúde. Estas é que eram as preocupações de Samora. Quando viéssemos aqui a Chilembene, a preocupação dele era sentar com os “madodas”, conversar, saber quais eram os problemas, como é que se podia melhorar a produção aqui da região, principalmente por causa do regadio. Portanto, a preocupação era constantemente o que é que se podia fazer para melhorar a vida do país.

 

Samora Machel partilhava muitas ideias com a família. Teria ouvido Samora falar sobre a sua visão em relação aos recursos minerais que o país tem, porque naquela já havia informação sobre isso?

Não vou dizer que ouvi a falar com amigos ou colegas. É de conversas que tivemos em casa. Ele sempre achou que esses recursos fossem sempre uma mais-valia para o desenvolvimento do país, mas que era preciso saber explorar, para beneficiar todo o povo. Dizia que, antes disso, havia outras prioridades, como a saúde digna para todo o povo, escolas condignas para o povo e a certeza de que os benefícios da exploração desses recursos fossem distribuídos equitativamente para todo o povo. Ora, nós sabemos que esses recursos provocam sempre problemas em qualquer parte do mundo. Podemos ver alguns outros países africanos que têm recursos, estão em conflitos sérios, porque há problemas de ambição. Há problemas de egoísmo.

 

Onde estava e em que circunstâncias recebeu a notícia trágica sobre o desaparecimento do presidente?

Eu estava a dormir. Veio a minha irmã mais velha, a Olívia. Veio acordar-me e disse-me que tínhamos que sair de casa, porque o papá ainda não tinha chegado. Logo me apercebi que havia alguma coisa errada. A primeira reacção que eu tive foi: mataram o meu pai.

 

Já esperava esse episódio? Os sinais eram evidentes nessa altura, para logo concluir isso?

Estávamos em momentos muito tensos na região. O nosso pai, como disse, não tratava de assuntos políticos em casa, mas conversávamos e, por várias vezes, ele nos alertou e nós estávamos conscientes, pela posição que ele ocupava, que podia, a qualquer momento, haver algum atentado contra a vida dele e, principalmente, porque nos últimos meses a situação militar e política em África, principalmente por causa da África do Sul, com o regime do apartheid, era muito tensa. Havia já ameaças dirigidas a Samora Machel.

 

Lembra-se de alguma específica?

Não. Eu era muito pequeno e são coisas que só viemos a ver em jornais muito mais tarde. Eu sei que eles estavam a tentar matar o meu pai e já tinha havido dois atentados, que eu saiba. Então, a situação era muito má.

 

Trinta anos depois, a família persegue ainda a verdade por detrás da morte de Samora Machel…

Sempre vamos querer saber da verdade. É prioritário. Não há dia em que não queiramos saber o que aconteceu ao nosso pai e quem foram os executores da morte dele. O Governo responsabilizou-se em dar-nos uma resposta, até hoje não sabemos. Nós, como família, não temos meios para poder, sozinhos, investigar. Se tivéssemos meios, já teríamos resultados.

Opais

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