A tinta indelével no dedo do Gove

Quem já experimentou pintar o dedo com tinta indelével sabe muito bem o tempo que essa leva a desaparecer. A não ser que se calcem luvas antes de nela tocar.
Não é por acaso que ainda a usamos para comprovar a ida aos escrutínios de votos nos nossos pleitos eleitorais. Claro que não significa que seja mais eficaz que o voto electrónico e o uso das impressões digitais.
Mas parece haver quem desconheça o facto, e no topo da lista colocamos o nosso ex governador do Banco de Moçambique ao julgar que seu dedo no processo das dívidas ocultas estava protegido por luvas.
Quando autorizou as transacções bancárias de e entre as empresas/organizações envolvidas na trilogia das dívidas “não mais ocultas” e depois veio a público com um discurso bastante eloquente e convincente de que não tinha seu dedo na papelada oculta, o então Gove, digo, governador do Banco de Moçambique não apenas tomou conhecimento das mesmas, mas também participou, mesmo que de forma não tão directa, mas às direitas.
Talvez porque não fez bem o TPC e esqueceu-se de usar a ferramenta de busca Google que várias vezes nos dá informações úteis. Quem sabe se tivesse colocado a frase “meu dedo possui impressão digital como de qualquer humano?”
E a resposta seria “qualquer Gove deve saber disso”. E hoje estaria apenas na lista dos devedores que comeram e colocaram a culpa no povo, mas escaparia do rótulo de mentiroso e retiraria da lista das acusações a obstrução à informação. Afinal, esta devia ser pública, senão não havia o tal do direito a informação.
Como que num filme de suspense, iniciamos com um silêncio “ensurdecedor” sobre quem, como, quando e porque foram contraídas as dívidas. Depois passamos para um monólogo da PGR com o discurso de estamos a trabalhar, trecho esse que ocupou quase a metade do filme.
E quando pensamos estar perante uma longa metragem sem o suspense necessário, somos bombardeados com as detenções em massa, tal qual os disparos em série quando se abre fogo, que prende todas as atenções ao ecrã e faz estremecer as “estruturas”.
E porque pagamos ingressos muito elevados, exigimos acção, somos agora brindados com uma peça chave do xadrez. O peão. Que na sua postura inofensiva move-se subtil, esquiva quem vem cavalgando e pode até fazer o xeque-mate. Mas na mesa do jogo, não passa de peão. E se colocado como personagem do filme, ocuparia o lugar até de figurinista, mas sem o qual o actor principal não teria seu brilho.
Vamos ainda a meio do filme, onde veremos ainda muitos figurinistas tombarem até que se chegue ao actor principal. Cá estaremos esperando diante do ecrã e na expectativa do final ser diferente dos vários “suspenses” que assistimos, onde cada telespectador desenha seu fim.
Já agora, mesmo que com poucos louros, valeu o tempo do trabalho da PGR pois já vemos alguns resultados, dentre os quais o personagem que consegue esconder-se no sótão e coabitar com os demais sem nunca darem pela sua presença até que um dia a casa cai. Se bem que esta casa ainda está longe de cair. E nós deste lado, aguardamos pela queda para dentre os escombros esperarmos encontrar um bloco intacto.
Voltando ao Gove, retiro o chapéu porque representou com mestria o papel de menino bonzinho quando na verdade era um vilão. Só espero que sua próxima aparição não seja nas ilhas Maurícias, Fiji ou outro destino paradisíaco para nos lembrar que como peão, bispo ou cavalo, na verdade ele é um rei.
WAMPHULA FAX

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