Ataques: Repressão em Cabo Delgado pode ter efeitos contraproducentes

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Um analista do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS, na sigla inglesa) defendeu hoje que as ações repressivas para travar a onda de violência em Cabo Delgado, podem ser “contraproducentes” e até “exacerbar” o problema.

“Temos a perceção de que o Presidente Nyusi quer resolver o problema e parece perceber que este é multifacetado e requer uma abordagem holística, mas parece haver dificuldades em dar seguimento” às decisões, disse à Lusa Judd Devermont, o diretor do programa de África deste ‘think tank’ baseado em Washington.

Segundo Judd Devermont, “o Presidente parece ter uma visão abrangente do problema”, mas as instituições governamentais e os militares, entre outros, têm levado a cabo ações “contraproducentes”, como detenções, execuções extrajudiciais, repressão de jornalistas e outras “táticas pesadas” que, em última instância, podem “exacerbar o problema”.

Para o responsável do CSIS, “não fica claro se as diretrizes do Presidente (…) estão a ser transmitidas a quem está no terreno”, levantando questões sérias “em torno da capacidade, processo de decisão e implementação”.

Além de uma abordagem holística, que deve incluir diálogo, o Governo moçambicano “deve dar resposta aos problemas socioeconómicos” e melhorar a comunicação, pois “há pouca transparência sobre o que está a ser feito face a esta ameaça”, mas também quanto aos recursos da região”.

Judd Devermont salientou também a importância de “uma abordagem regional”, nomeadamente com a Tanzânia (na fronteira norte).

“Tem havido conversas e acordos, mas acredito que podem ser mais robustas e mais transparentes”, afirmou o especialista.

Quanto ao envolvimento do Estado Islâmico (EI), que na terça-feira reivindicou um ataque em Cabo Delgado, disse que “é preciso ser cauteloso”.

“Precisamos de mais tempo para avaliar a sua credibilidade e é preciso perceber o contexto do que o EI está a fazer na África subsaariana, aliviando as suas condições de afiliação e associando-se a grupos que são mais pequenos, com menos credenciais islâmicas, para mostrarem que ainda têm alcance, apesar de terem perdido o controlo na Síria e no Iraque”, observou.

A afiliação de grupos da África subsaariana ao Estado Islâmico tende igualmente a ter um impacto modesto.

“É o que temos visto quando se juntam aos grupos na Nigéria ou no Sahel. Melhoram a comunicação com os ‘media’, mas no que diz respeito a outras questões mais preocupantes como orientações estratégicas, transferência de competências, de dinheiro, ou até pessoas, isso raramente acontece”.

Por isso, continuou, “é preciso esperar para ver se esta relação com o EI vai mudar a maneira como operam no terreno”.

Quanto às motivações e fontes de financiamento continua a haver mais perguntas do que respostas, mas o grupo parece não estar a gastar muito dinheiro.

“Os ataques são rudimentares, usam catanas, eventualmente bombas caseiras. Não parecem ter acesso a grandes recursos e as armas parecem ter sido obtidas através de raides e roubos”, indicou.

De acordo com os números recolhidos pela Lusa, a onda de violência em Cabo Delgado, que começou em outubro de 2017, já provocou a morte de cerca de 200 pessoas, entre residentes, supostos agressores e elementos das forças de segurança.

LUSA

Jacinto G. Manusse

É um Empreendedor e Consultor de Marketing Digital que dedica a sua vida à produção e partilha de conteúdos de grande qualidade, contando já com alguns dos mais reconhecidos blogs em Moçambique.

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